Por dentro da base: Entrevista com Álvaro Martins

O blog Sports21 dá sequência a série de entrevistas com jovens treinadores das categorias de base.

A segunda entrevista da série é com o garoto Álvaro Martins de 20 anos, estudante de Esporte na USP e iniciante na carreira de treinador de futebol.

Com 20 anos o garoto já contabiliza passagens por Fortaleza-CE e  Dragon Force, escolinha de futebol do F.C.Porto de Portugal.

Confira a entrevista completa feita diretamente de Portugal:

 Sports21  - Vindo do Nordeste, quais suas referências como treinadores?

Álvaro Martins - Infelizmente, não considero como referência nenhum dos treinadores do Nordeste. Sou ‘exigente’ com quem considero minhas referências, prefiro colocar como referências pessoas com quem já trabalhei e me ensinaram muito, por que colocar como referência alguém que ganhou muito ou fez um bom trabalho é subjetivo, pois você não estava lá para saber como foi feito aquele bom trabalho e nessa escolha de referências não se pode apenas olhar para onde eles chegaram, mas também como chegaram.

Como sou um treinador que não chegou a isso por ser ex-jogador, gosto muito e torço por outros treinadores que tiveram que percorrer um caminho parecido com o meu, como o Ney Franco, Mano Menezes, Parreira, Mourinho e Villas Boas, mas como referências coloco apenas o Prof. José Guilherme, que tem me ensinado muito durante as aulas e o Prof. Bruno Pivetti, que foi a primeira pessoa a abrir minha mente e enxergar o Futebol de maneira diferente.

Apesar disso, não deixo de aprender com os outros treinadores, mesmo sendo por uma entrevista lida ou por estar ali lado a lado com ele. Como dizia um professor meu, nós podemos aprender com todos, pois podemos aprender a não cometer os mesmos erros de quem cometeu erros e também a acertar como os que acertaram.

 

O que acha do momento do futebol nordestino no atual cenário nacional?

Acho que agora no Futebol Brasileiro estamos começando a ver o que na Europa já é bastante comum, alguns times com muito e outros com pouco. Infelizmente, por questões socioeconômicas e culturais, o Nordeste não tem nenhum time dentro desses que coloco como ‘ricos’ e isso é preocupante, pois como na nossa sociedade os ricos são muito poucos e, eventualmente, vai deixar o nosso Futebol mais pobre, não financeiramente, mas de diversidade. E isso é exatamente o contrário do que é o Brasil. Não digo só no Futebol, mas o nosso país é conhecido no mundo por ser um país de grande diversidade cultural e diminuir a diversidade do Futebol vai nos deixar mais pobres, MUITO mais pobres.

Conte um pouco da sua mudança de Fortaleza para São Paulo:

Com 17 anos estava procurando como que entraria no meio do Futebol, nem mesmo o curso eu sabia o que fazer, é mesmo lógico fazer Educação Física (parece que é lógico, mas algumas formações em Educação Física te ensinam tudo, menos Futebol), mas ainda fui mais a fundo e descobri o curso de Esporte na USP. Além de ser um curso mais voltado para o que eu queria (na teoria, na prática digo que não é tão voltado para o que eu queria) era na maior Universidade do Brasil e me deixaria mais perto de vários clubes grandes e de médio porte. No Ceará apenas há 2 times conhecidos nacionalmente e já em São Paulo há como citar pelo menos 6 times conhecidos nacionalmente, então era mesmo a melhor escolha. Hoje digo que foi mesmo a melhor escolha, pois foi a primeira de várias escolhas que me trouxeram até este momento e posso dizer tranquilamente que estou bem satisfeito com o caminho que já percorri nesse curto período de 3 anos.

A mudança não foi tão difícil, felizmente, conheci pessoas incríveis que me ajudaram muito em São Paulo.

 

Como começou a sua vida dentro do futebol, fale das suas experiências:

Comecei por que fui insistente, não tive grandes estímulos para acompanhar o Futebol nem por parte da minha família, por que maior parte dela não acompanha tanto e nem como jogador que nunca fui. Mas era algo que eu queria fazer, gosto disso, acho que tenho uma boa capacidade para liderança e não tive medo de errar. Quando tomei a decisão de seguir minha vida com isso foi mesmo pensando que não queria nunca na minha falar ‘e se’. Tenho certeza que fiz a decisão certa, nunca passa pela minha mente um ‘e se tivesse feito aquilo’ e apesar de não ter tido essa presença do Futebol na minha vida quando mais novo, tenho certeza que aprendi mais que a maioria, por que no nosso meio, grande parte das pessoas acha que já sabe de tudo, por que fez isso e fez aquilo quando jogadores, sendo que a vida de treinador é completamente diferente e por vezes o conhecimento da época que ele foi jogador já foi ultrapassado e se ele ainda está fazendo a mesma coisa que o treinador fazia, está bem ultrapassado.

E a sua experiência em Portugal, como está sendo?

Acho que não consigo descrever aqui a grandiosidade que isso tem sido, não vou entrar no crescimento pessoal que está sendo indescritível, mas falando do Futebol aqui tenho algo que eu gostaria de ter no Brasil, tenho aulas com professores que além de professores estão inseridos na prática e no top da prática, como o Prof. José Guilherme que é treinador do sub-17 do FC Porto e o Prof. Júlio Garganta, analista de jogo da Seleção de Portugal.

Eu vim pra cá, muito por causa do Prof. Bruno Pivetti. No começo de 2011 assisti uma palestra dele, onde ele contou a história de dele e achei que era bastante parecida com a minha. Ele contou que aprendeu muito em Portugal, me indicou alguns livros para ler e fiz isso. Descobri a Periodização Tática, mas o que eu sabia antes de vir pra cá era algo em torno de 0,001%, hoje acho que estou perto do 1%, mas foi mesmo um crescimento enorme.

Estar aqui na presença de tantos bons treinadores me fez enxergar o Futebol mais a fundo, ver que Futebol é só uma pequena parte do Futebol, me fez enxergar que Tudo ao redor do Futebol influencia no Futebol, seja a língua, o clima, as relações familiares, as estruturas, os diretores e mais infinitas (in)variáveis.

A Dragon Force também tem me ajudado a pôr toda essa teoria em prática, pois nunca tinha utilizado a Periodização Tática e agora tenho tido oportunidade de operacionaliza-la e é mesmo sensacional!

 

 

Faça um comparativo entre a estrutura do futebol português e brasileiro:

Não creio que uma comparação é muito justa, mas quando se chega a Europa nota-se de cara que o Brasil não é bem o ‘País do Futebol’, claro que somos mais vitoriosos e historicamente temos os melhores jogadores, mas aqui o Futebol está em outro patamar, aqui temos um presidente que está a mais de 30 anos no comando de um mesmo clube, Pinto da Costa, presidente do FC Porto. Aqui as pessoas vivem o Futebol. Até quando o Porto joga contra times que nem são conhecidos no Brasil é a notícia da semana. Aqui as pessoas tem o Futebol mesmo em suas vidas, tanto é que com uma população de 10 milhões em todo o país, a média de público da primeira divisão de Portugal é parecida com a do Brasil que tem mais de 180 milhões de habitantes. Além das ligas jogadas em escalões menores ter uma estrutura fenomenal, várias séries, calendário muito bem feito, diversos clubes, maioria dos campos com sintético e regidos por uma entidade que já o faz a bastante tempo com perfeição.

 

Você lê muito, cite alguns livros que fazem parte da tua vida dentro do futebol:

Como tenho o Bruno Pivetti como uma das minhas referências, acho muito justo colocar o livro dele como o primeiro a ser lido, Periodização Tática: o Futebol arte alicerçado em critérios. Infelizmente, não o li ainda, pois não tem para venda aqui em Portugal, mas tenho total confiança no que ele escreve e sei que o livro é sensacional. Depois desse indico algumas monografias feitas aqui em Portugal que foram convertidas em livros, que é o caso do livro: Defesa à Zona, do Nuno Amieiro; A justificação da Periodização Táctica como uma ‘fenomenotécnica’ do Carlos Campos. E para quem ainda não tem a mente aberta para a Periodização Táctica, indico também o livro Mourinho por que tantas vitórias? Também de autoria do Nuno Amieiro e mais 3 escritores, onde fala da utilização da Periodização Tática por José Mourinho.

Há vários livros bons sobre Futebol, mas como disse acima, Futebol é muito mais que Futebol e centrar toda sua leitura apenas nisso pode não ser tão bom, tem que se procurar livros que falem sobre o que você pretende estudar para ser um melhor treinador, seja liderança, motivação, Futebol mesmo ou qualquer outro assunto que te interesse.

 

Atualmente no futebol mundial, quais os 3 melhores treinadores, na sua opinião?

José Mourinho é o melhor, isso pra mim é quase indiscutível, não o conheço, mas tenho certeza que ele enxerga o Futebol de uma maneira diferente dos outros, principalmente, com o cenário atual, onde todos querem jogar como o Barcelona, posse de bola, passe em segurança, etc, e tenho certeza que ele sabe que a cultura de jogo do Barcelona é a ideal, até já li várias entrevistas dele onde cita a valorização da posse de bola,o jogo em 1 4 3 3 como o Barcelona, mas sendo o grande treinador que é, sabe que não consegue operacionalizar isso em uma equipe em poucos anos e faz o que pode com as equipes que tem. Por isso, tanto o Real Madrid quanto a Inter de Milão dos tempos de Mourinho eram piores que o Barcelona, mas ganharam.

A partir daqui já corro o risco de ser injusto com outros treinadores que gosto, mas o segundo para mim é Arsène Wenger, não tem tido boas campanhas, mas a equipe dele já não tem o investimento que há em outros clubes da Inglaterra e, atualmente, é ele o melhor treinador para fazer as transições base-profissional, grande formador de jogadores, infelizmente para ele, quando os jogadores estão prontos para render, são vendidos.

Em terceiro lugar vou colocar um treinador que não tem tanta atenção da mídia nem é tão conhecido, mas hoje comanda uma das melhores equipes do mundo, Jurgen Klopp, treinador do Borussia Dortmund.

Além desses, gosto muito do Van Gaal, Guus Hiddink, Pep Guardiola e Roberto Di Matteo. Esses 4 também merecem uma atenção especial pelos grandes trabalhos que tem feito nos últimos anos.

 

Finalizando seu período em Portugal, quais os planos para 2013?

Tenho algumas ideias em mente, mas não gosto de ir adiantando coisas que não dependem só de mim, por que caso não dê certo a queda é maior. Única certeza que tenho é que volto para São Paulo para terminar meu curso.

Mande um recado aos leitores do blog Sports21:

Bom, pra quem tem esse sonho de ser treinador, o que eu posso falar é: estude. Muito, muito, muito mesmo, seja vendo jogos, lendo livros, experimentando no treino. Saibam que para ser melhor que a maioria não é tão difícil, por que a maioria é gente que acha que ser treinador é só botar a bola pra rolar no treino, mas para chegar longe não tem que ser só melhor que a maioria, tem que estar dentro dos top do mundo e isso sim é muito difícil, quem está lá é gente que vive o Futebol toda hora, que pensa tudo em função do Futebol e para chegar nesse nível é muito difícil. Mas impossível é só questão de perspectiva, então aproveitem as oportunidades o máximo possível e sigam os sonhos. Aproveitem o espaço que a Sports21 dá para conhecer diversos jogadores e quem quiser conversar alguma coisa, tirar alguma dúvida, o meu contato é alvaromrts@gmail.com .

Um abraço. 

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Por dentro da base: Entrevista com Guilherme Cangussú


Guilherme Cangussú LimaA Sports21 inicia uma série de entrevistas com profissionais ligados a categorias de base, em todo o Brasil, com o objetivo de entender um pouco mais a realidade dos jovens treinadores que estão iniciando na carreira.

O primeiro entrevistado é o jovem mineiro Guilherme Cangussú Lima.

Confira o bate-papo da equipe Sports21 com Guilherme:

 

Sports21 - Fale um pouco sobre seu currículo:

Guilherme - Meu nome é Guilherme Cangussú Lima, sou natural de Caratinga-MG, mas resido em Viçosa-MG, onde sou graduando do último período do curso de Educação Física na Universidade Federal de Viçosa. Comecei no futebol como atleta, iniciando minha formação no Ipatinga F.C, A.E.R. Usipa e A.A. Aciaria. Como profissional atuei no Ideal F.C, Esportivo Guará-DF e Social F.C. Já dentro do meio acadêmico e focado em ser treinador, fui auxiliar técnico da equipe sub-17 do V.E.L. (Viçosa Esporte Lazer), participando do campeonato mineiro. Assumi a equipe universitária, participando de campeonatos regionais. Morei durante 6 meses em Portugal, na cidade do Porto, onde tive a oportunidade de estudar na FADEUP, Faculdade de Desporto da Universidade do Porto. Na cidade do Porto, trabalhei como auxiliar técnico da equipe Sub-13 do Leixões Sport Club.  Além de participar do processo de captação e estagiar no Ubaense Esporte Clube, excelência em formar atletas e inseri-los no mercado.

 

Sports21 - Como foi a experiência fora do Brasil?

Guilherme - Foi uma grande experiência, tanto pessoal como profissional. Estive em contato com uma grande estrutura acadêmica, com grandes docentes. O melhor da literatura sobre futebol e sendo apresentada por grandes professores, sendo eles os precursores de uma metodologia de trabalho pouco conhecida no Brasil, a periodização tática. Além do contato com várias nacionalidades, vários costumes e tradições, isso tudo engrandece culturalmente e abre novos horizontes sobre a vida.

Sports21 - Quais as principais diferenças entre as categorias de base em Portugal e Brasil?

Guilherme - Nas escolas de formações de Portugal, é priorizada a organização tática das equipes, com um jogo de bastantes apoios e muita circulação de bola, procurando sempre a superioridade numérica ofensiva. A individualidade dos atletas aparece dentro do modelo de jogo, servindo como acréscimo para busca da vitória. Já no Brasil, a individualidade dos atletas é colocada em cima das capacidades táticas da equipe, sempre buscando a igualdade numérica ofensiva. Mas há no nosso país, centro de formações que preparam os atletas por completo, tanto na parte física, técnica, tática e psicológica para que eles sejam inseridos em grandes clubes, facilitando a captação.

Sports21 - Qual a importância da teoria do futebol na montagem dos treinamentos?

Guilherme - No futebol de hoje não há espaço para o "achismo", para pessoas desatualizadas e fora do cientificismo que está dentro do futebol. Por isso da importância da parte teórica nas montagens dos treinamentos. A sustentação teórica junto com a vivencia prática é a melhor forma de construir um trabalho vitorioso.

Sports21 - Quais suas referências como treinador ?

Guilherme - Como referência acadêmica tem meus professores da Universidade Federal de Viçosa, Professor Próspero Brum Paoli e Professor Israel Teoldo da Costa, onde me ajudaram a compreender a ciência futebol. Como treinador, as referências internacionais são José Mourinho e Pep Guardiola. Agora os treinadores nacionais, admiro o trabalho do Ney Franco e Tite.

Sports21 - Quais seus planos pro futuro no futebol, como treinador ?

Guilherme - Para o futuro, tenho planos em trabalhar em alguma equipe de base, vivenciando todas as categorias, do sub 15 até sub 20. Sabendo que nessas equipes, ocorre um aprendizado enorme, chegando numa equipe profissional com uma bagagem grande.

Em breve novas entrevistas no blog da Sports21.

Até mais.

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